Após engolir as pílulas receitadas para que “voltasse a ter força de vontade”, que pudesse repetir suas obrigações diárias, refugiava-se, entretia-se com a realidade virtual, de vidas que só existiam aí: dentro da web. Pensava sobre a plasticidade que aquela felicidade alheia exibia. Talvez elas fossem reais, apesar de bizarras... Mas quase acreditava que poderia invejá-las. Seria tão mais fácil estar dentro do padrão. Tinha medo do julgamento, quase não se expunha pois temia o olhar o outro. Não tinha o aparelho X, o corpo Y, o reconhecimento, não sabia o que era vencer aos moldes pré-estabelecidos. Fazia um esforço comovente pela ignorância e a anestesia, mesmo com todo o medo de sentir. E as pessoas... com ou sem a tecnologia, sempre foram cruéis. Essa crueldade tinha deixado chagas que nunca cicatrizaram, mas pararam de arder. As necessidades básicas (que deveriam ser garantidas) privadas, a indiferença alheia, a culpabilização (“se tivesse se esforçado, tinha conseguido”, ouviu a vida toda), a competitividade... eram tantas e em diferentes formas de materialização, que a única lição que aprendeu desde a infância era que o que queria não importava... precisava vencer na vida. Não venceu. Só reagia, para evitar os maiores medos. Seus demônios que voltavam para assombar em noites em que a insônia assolava. 2- Produtos do medo Hiperconectividade (e) Novas formas de consumo (um) mundo que cria inseguranças as tem como alimento ao povo Capitalismo cria medos Publicidade vende a "solução" Receitas pra felicidade obrigatória Aos moldes do mundo do desempenho Uma Distopia Liberal Real O mal estar quer nos dizer que algo está muito errado É preciso se mover, escapar de ser acorrentado ao desejo do Outro, que não é a nossa escolha. Em condições reguladoras, de gestão da auto opressão, Condições insuportáveis, em uma versão de Escravidão contemporânea, (Que) nos reduz e a chaga é a depressão